sábado, 7 de novembro de 2009
versos sem nome
sem que os cigarros te consolem
ou as noites infindas lhe façam bem
busquei a tua presença
mas você não estava
você sumiu e não havia causa que lhe implantasse o desejo de ficar por mim
quero agora lhe dizer que cansei
mesmo que já tenha lhe dito umas mil vezes do meu cansaso
mas dessa vez é sério, muito sério
não voltarei mais pra curar-lhe as feridas
para que meu ombro afague seus frustados quereres
porque quando eu desejei viver
você me fez dançar solitária no salão em xadrez
deixe que a vida agora me acompanhe
eu irei com ela por entre as carnes duras
tentando o lírio por detrás dos muros
forçando o aroma
até que por fim eu entenda
eu compreenda que na vida
existem aqueles que te querem bem
e aqueles que lutam por isso
.poema avulso de uma madrugada bêbada - amanhã eu leio o que escrevi
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Filosofia, Pablo Neruda.
O poema Filosofia é um dos que mais aprecio no livro Coração Amarelo. Pela forma simples como fala de uma coisa impalpável mas que ao mesmo tempo é nossa e nos acende a beleza da existência.
Pablo Neruda é um dos meus maiores companheiros quando se fala de amor e, antes de tudo, do humano.
Filosofía
Queda probada la certeza
del árbol verde en primavera
y de la corteza terrestre:
nos alimentan los planetas
a pesar de las erupciones
y el mar nos ofrece pescados
a pesar de sus maremotos:
somos esclavos de la tierra
que también es dueña del aire,
Paseando por una naranja
me pasé más de una vida
repitiendo el globo terrestre:
la geografía y la ambrosía;
los jugos color de jacinto
y un olor blanco de mujer
como las flores de la harina.
No se saca nada volando
para escaparse de este globo
que te atrapó desde nacer.
Y hay que confesar esperando
que el amor y el entendimiento
vienen de abajo, se levantan
y crecen dentro de nosotros
como cebollas, como encinas,
como galápagos o flores,
como países, como razas,
como caminos y destinos.
Fica provada a certeza
da árvore verde na primavera
e do córtex terrestre
- alimentam-nos os planetas
apesar das erupções
e o mar nos oferece peixes
apesar de seus maremotos –
somos escravos da terra
que também é dona do ar.
Passeando por uma laranja
eu passei mais de uma vida
repetindo o globo terrestre
- a geografia e a ambrosia –
os jogos cor de jacinto
e um cheiro branco de mulher
como as flores da farinha.
Nada se consegue voando
para se escapar deste globo
que te aprisionou ao nascer.
E há que confessor esperando
que o amor e o entendimento
vêm de baixo, se levantam
e crescem dentro de nós
como cebolas, azinheiras,
como tartarugas ou flores
como países, como raças,
como caminhos e destinos.
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Jogos Frutais
Hoje senti vontade de relê-lo, agora sem chuva mas com uma noite gostosa que as horas insistem em atravessar...
De fruta é tua textura
e assim concreta;
textura densa que a luz
não atravessa.
Sem transparência:
não de água clara, porém
de mel, intensa.
Intensa é tua textura
porém não cega;
sim de coisa que tem luz
própria, interna.
E tens idêntica
carnação de mel de cana
e luz morena.
Luminosos cristais
possuis internos
iguais aos do ar que o verão
usa em setembro.
E há em tua pele
o sol das frutas que o verão
traz no Nordeste.
É de fruta dó Nordeste
tua epiderme:
mesma carnação dourada.
solar e alegre.
Frutas crescidas
no Recife relavado
de suas brisas.
Das frutas do Recife.
de sua família.
tens a madeira tirante.
muito mais rica.
E o mesmo duro
motor animal que pulsa
igual que um pulso.
De fruta pernambucana
tenso animal,
frutas quase animais
e carne carnal.
Também aquelas
de mais certa medida,
melhor receita.
o teu encanto está
em tua medida,
de fruta pernambucana,
sempre concisa.
E teu segredo
em que por mais justo tens
corpo mais tenso.
Tens de uma fruta aquele
tamanho justo; .
não de todas. de fruta
de Pernambuco.
Mangas,mangabas
do Recife. que sabe
mais desenhá-las.
És um fruto medido.
bem desenhado;
diverso em tudo da jaca,
do jenipapo.
Não és aquosa
nem fruta que se derrama
vaga e sem forma.
Estás desenhada a lápis
de ponta fina.
tal como a cana-de-açúcar
que é pura linha.
E emerge exata .
da múltipla confusão
da própria palha.
És tão elegante quanto
um pé de cana,
despindo a perna nua
de dentre a palha.
E tens a perna
do mesmo metal sadio
da cana esbelta.
o mesmo metal da cana
tersa e brunida
possuis, e também do oiti,
que é pura fibra.
Porém profunda
tanta fibra desfaz-se
mucosa e úmida.
Da pitomba possuis.
a qualidade
mucosa, quando secreta,
de tua carne.
Também do ingá,
de musgo fresco ao dente
e ao polegar.
Não és uma fruta fruta
só para o dente,
nem és uma fruta flor,
olor somente.
Fruta completa:
para todos os sentidos,
para cama e mesa.
És uma fruta múltipla,
mas simples, lógica;
nada tens de metafísica
ou metafórica.
Não és O Fruto
e nem para A Semente
te vejo muito.
Não te vejo em semente,
futura e grávida;
tampoucoem vitamina,
em castas drágeas.
Em ti apenas
vejo o que se saboreia,
não o que alimenta.
Fruta que se saboreia,
não que alimenta:
assim descrevo melhor
a tua urgência.
Urgência aquela
de fruta que nos convida
a fundir-nos nela.
Tens a aparência fácil,
convidativa,
de fruta de muito açúcar
.que dá formiga.
E tens o apelo
da sapota e do sapoti
que dão morcego.
De fruta é a atração
que tens, a mesma;
que tens de fruta, atração
reta e indefesa.
Sempre tão forte
na carne e espádua despida
da fruta jovem.
És fruta de carne jovem
e de alma alacre,
diversa do oiti-coró
porque picante.
E, tamarindo,
deixas em quem te conhece
dentes mais finos.
És fruta de carne ácida,
de carne e de alma;
diversa da do .mamão,
triste, estagnada.
É do nervoso
cajá que tens o sabor
e o nervo-exposto.
És fruta de carne acesa,
sempre em agraz,
como araçás, guabirabas,
maracujás.
Também mangaba..
deixas em quem te conhece
visgo, borracha.
Não és fruta que o tempo
ou copo de água
lava de nossa boca
como se nada.
Jamais pitanga,
que lava a Iínguae a sede
de todo estanca.
Ácida e verde, porém
já anuncias
o açúcar maduro que
terás um dia.
E vem teu charme
do leve sabor de podre
na jovem carne.
Aumentas a sede como
fruta madura
que começa a corromper-se
no seu açúcar.
Ácida e verde:
contudo, a quem te conhece
só dás mais sede.
Ao gosto limpo do caju,
de praia e sol,
juntas o da manga mórbida,
sombra e langor.
Sabes a ambas
em teus contrastes de fruta
pernambucana.
Sem dúvida, és mesmo fruta
pernambucana:
a graviola, a mangaba
e certas mangas.
De tanto açúcar
que ainda verdes parecem
já estar corruptas.
És assim fruta verde
e nem tão verde,
e é assim que te vejo
de há muito e sempre.
E bem se entende
que uns te digam podre e outros
te digam verde.
João Cabral de Melo Neto
domingo, 27 de setembro de 2009
Levem esta atriz!

As partes embaralham-se
perco-as sob os cobertores
a confusão foi feita
levaram as máscaras
era eu quem deveria ter ido
judiaram do meu frágil lar
assustam-lhes pelos campos de concentração
posta nua, abruptamente
raspado todos os pêlos, pentelhos
da minha pele negra e flácida
esqueci todos os artifícios no colégio
preciso de mais uns dez anos acadêmicos
levem-me!
levem esta atriz!
sábado, 19 de setembro de 2009
Sobre as coisas
mora em mim uma eterna nostalgia
as correntes mantendo a fonte
oceanos continuamente tocando-se
indo, vindo, rodando
rondando espaços
parindo corpos
livres de si
livre dos portos que atracam
retornando à deusa azul
como nós retornamos ao ventre
do amor que nutre nossos corpos em movimento
eternamente livres de si
correndo águas
banhando-se nelas
sentindo sede
e ainda assim essa sede que não cessa
quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Troquei os pés, uma boa noite sem resposta
Quis voltar pela mesma porta em que havia entrado
Apenas o meu corpo
o resto foi caindo pelo caminho
fragmentando-se, diluindo-se, ardendo, de bons quereres.
Apenas o meu corpo
E ainda assim nem todo por completo
Umas partes pela tua cama, outras pela tua pele
Rasguei os pensamentos que outrora quis congelar em um papel qualquer
Doía por fora, entre as dobraduras dos órgãos
E as esquinas da realidade que latejava em minha cabeça
Em frente à cadeira havia uma máquina
Que me levava, não sei bem como, ao exato lugar em que deveria estar
o lugar qual deixei atrás da porta, antes de trocar os pés e perder aquelas tais partes do meu corpo
Não pedi aos céus que caíssem e trouxessem os deuses
não quis ouvir tais favas que inconformam o meu estar dentro de mim
Essas noites de deleite sem pudor, esperam-me
E eu também as espero, gozada nos melhores travesseiros
Roupas bem lavadas, perfumes recém-abertos
E atrás da porta um mundo
que no encontro com o que carrego em mim
Há uma festa de prazeres indizíveis, salvo os tortos ouvidos
Estou salva!
São os salvos
Acho que sobrevivo até minha morte.
sábado, 29 de agosto de 2009

Olhava o céu sobre o chão da minha varanda
Tantos ais de espaços a vagar sobre o meu corpo
tantas carnes ardidas a serem veledas, tanto sentir
Eu era um tanto de tantas coisas
que nenhuma estrela haveria de contar-me.
Consenti, pois, com o céu
que ouviria do seu silêncio somente as coisas de amor do mundo.
Ele respondeu-me com o vento
arrastou meus cabelos pelo chão
despiu-me
e sussurou numa nota uníssona
AME.
Camila Brito
imagem de Jack Vettriano
terça-feira, 25 de agosto de 2009
Madrugada
Como são traiçoeiras
esperam por você na hora mais dispersa
e rapta tu de tu mesma
uma espiã sedenta
rouba-lhe as últimas gotas d`água
e grava-lhe tudo
e repete tudo como num gravador
Quero-te aqui nessas madrugadas de insônia
assim não precisaria transar a lua, a noite
transaria os sentidos e ouviria vozes ao pé do ouvido
me dizendo segredos indecentes
que só se dizem nessas madrugadas.
Camila Brito
Morrerei amando

É orgânico dizer-lhe do meu amor todo o tempo.
por vezes seca meu ser, de uma sede que não cessa
que não há bocas, mãos
outros amores que baste para encharcar meu corpo.
ele me assusta, de tão imenso
bem maior que o meu humano
e esse gigante me olha e eu tenho medo
sim, por vezes eu tenho medo
porque ele quer me dominar, ele me domina com tuas sedas e lâminas
e me rasga
ele me dói também
quando não tenho teus braços pra me acolher e me soprar somente as coisas belas.
ele finge que não sabe que não tenho muletas para sustentar meu peso
e ele enfraquece minha duas únicas pernas
confunde meus horizontes
e eu ando perdida como uma bêbada
sem lar, sem rumo.
Por horas chego a pensar que sou frágil demais para o amor
porque não cabe em mim
ele me cega e me arrasta pra cantos nunca antes existentes.
e só agora eu sei, pois só agora eu sinto mesmo o que é amar
mas é ele quem desperta meu corpo, acende minha alma, dá sentido a minha vida
sim, minha sina é morrer de amor, por amor, só por ele.
eu sei
morrerei amando.
Camila Brito
imagem de Edvard Munch
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
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A outra dizia-se plena e íntegra
e zombava desta, fragmentada
descortinada e por isso quente
fugia da nudez pulsante
que outrora trazia à mostra
passou a relatar os fatos que remetiam ao imenso flácido verso da pele
viu esta, arrancava-lhe vorazmente a roupa
fodia-lhe, arrombando sem dó os orifícios frágeis
gozando seco em tua própria face.
Sangrava por inteiro, não mais íntegra e plena
curvou-se, pois, sobre a cama
apoiada por aquela
que tirava a própria roupa do corpo para acalantar tua dor
quem cobria-lhe agora era teu espelho
Camila Brito
